"Antigamente era tudo gente do lugar. Cada um lugar tinha aqueles dono". (Seu Domingos, 2005).
“Sapê do Norte” é a identificação atribuída por comunidades negras e camponesas a uma vasta extensão dos Municípios de São Mateus e Conceição da Barra (Norte do Estado do Espírito Santo),ao longo dos vales dos rios Cricaré e Itaúnas.
Em suas origens, o “sapê” remete à vegetação encontrada no “nativo”, que acompanha as“muçunungas” dos tabuleiros terciários, protegendo os afloramentos de água subterrânea. É pioneiro após a derrubada, queima e abertura de clareiras dentro da floresta tropical para a plantação das roças de mandioca. Se a roça não vem, é o sapê que desponta na terra, da mesma forma que o faz após a colheita. O sapê era o lugar ideal da “solta do animal vacum” – o gado - e junto da floresta, constituía o “sertão”, lugar do uso comum e farto da terra e demais atributos da natureza: criação de animal, caça, pesca, extração do barro e madeira, coleta de frutos, cipós e palhas.
As comunidades negras e camponesas do Sapê do Norte originaram-se nos tempos da escravidão colonial, tecendo formas próprias de organização e apropriação da natureza até meados do século XX. Neste momento, o olhar do capital voltou a valorizar essas terras e sua floresta como objeto de acumulação de riquezas, por meio da extração da madeira, da produção do carvão vegetal e da celulose. Ambas as formas de territorialidade passariam, então, a se conflitar, numa relação que se tornou ainda mais explícita com o facho – atividade de coleta dos resíduos de eucalipto, realizada pelas comunidades negras rurais e tornada a principal alternativa de subsistência - e com o processo de construção da identidade quilombola e o reconhecimento de seus direitos territoriais pelo Estado Brasileiro.